Como Septimus Piesse aproximou a perfumaria da teoria musical.
Em meados do século XIX, o químico e perfumista inglês George William Septimus Piesse acreditava que os perfumes poderiam ser compreendidos da mesma maneira que a música.
Em 1857, na obra The Art of Perfumery, ele apresentou uma ideia curiosa e inovadora para a época: cada matéria-prima aromática poderia ser associada a uma nota da escala musical. Assim como uma melodia nasce da combinação de diferentes sons, uma fragrância também surgiria da harmonia entre diferentes cheiros.
Piesse observava que algumas essências pareciam “combinar” naturalmente, enquanto outras criavam tensão ou desequilíbrio. Para explicar esse fenômeno, utilizou como referência a escala diatônica, estabelecendo correspondências entre determinadas famílias olfativas e as notas musicais.
A proposta nunca pretendeu provar que uma lavanda “soa” como um dó ou que uma bergamota “é” um ré. Tratava-se de uma ferramenta criativa, uma maneira de pensar a construção de fragrâncias por meio dos princípios de equilíbrio, contraste e harmonia presentes na música.
Essa ideia influenciou gerações de perfumistas. Embora a perfumaria contemporânea utilize métodos muito mais sofisticados para formular perfumes, a linguagem musical permanece presente até hoje.
Não por acaso, ainda falamos em notas, acordes e harmonia olfativa.
Quando um perfumista reúne diferentes matérias-primas, ele não procura apenas um cheiro agradável. Ele busca equilíbrio, ritmo e profundidade, da mesma forma que um compositor organiza sons para criar emoção.
Talvez seja essa a melhor maneira de compreender um perfume: não como uma soma de ingredientes, mas como uma composição.
Assim como uma boa música, uma grande fragrância também tem introdução, desenvolvimento e permanência. Algumas notas aparecem imediatamente. Outras revelam sua beleza apenas com o passar do tempo.
Mais de um século depois, a teoria de Piesse continua inspirando uma forma poética de enxergar a perfumaria: como uma arte invisível, onde o nariz escuta aquilo que os olhos não podem ver.
Tatiana Boschilia
Fundadora do Laboratório Clandestino
