Por muito tempo, o chá ocupou um lugar bastante específico na perfumaria: fresco, transparente, verde e quase sempre acompanhado de cítricos. Nos últimos anos, porém, esse repertório começou a mudar.

O chá está se tornando uma das matérias olfativas mais interessantes da perfumaria contemporânea. Em 2026, o matcha aparece entre as tendências apontadas pela Vogue para o mercado de fragrâncias, acompanhando um movimento maior em direção a perfumes ligados a rituais, bem-estar e experiências sensoriais. 

Talvez parte do fascínio esteja justamente na diversidade.

Quando falamos em chá, não estamos falando necessariamente de um único cheiro.

Chá verde pode ser fresco, vegetal e levemente amargo. Chá branco tende a inspirar construções mais transparentes, delicadas e florais. Chá preto pode assumir uma personalidade mais seca, tânica, profunda e amadeirada. Oolong transita entre facetas florais, tostadas e minerais. Earl Grey cria uma associação quase imediata entre chá preto e a luminosidade cítrica da bergamota.

E então veio o matcha_

Verde, terroso, ligeiramente amargo e, dependendo da interpretação, cremoso. A popularidade do matcha fora da perfumaria acabou chegando também aos perfumes. Hoje encontramos interpretações que vão de acordes extremamente verdes até construções lactônicas que lembram um matcha latte. 

_Essa nova geração de fragrâncias também ajuda a desfazer uma ideia interessante: quando encontramos a palavra “chá” na descrição de um perfume, isso não significa necessariamente que o perfumista simplesmente adicionou chá à fórmula.

Muitas vezes estamos diante de um acorde.

Assim como construímos a impressão de couro, chuva, papel ou determinados alimentos combinando diferentes matérias-primas, o perfumista pode reconstruir olfativamente uma xícara de chá. Pode escolher representar a folha recém-colhida, o aspecto seco e tânico do chá preto, o vapor que sobe da xícara, a cremosidade de um matcha ou até a fumaça de um chá intensamente tostado.

É justamente essa liberdade que torna o chá tão interessante como território criativo.

Os muitos chás da perfumaria

Algumas interpretações aparecem com maior frequência.

Chá verde
Fresco, vegetal, luminoso e delicadamente amargo. É provavelmente uma das interpretações mais reconhecíveis do chá na perfumaria moderna.

Chá preto
Mais encorpado, seco e tânico. Pode revelar nuances de madeira, especiarias, frutas escuras e até fumaça.

Earl Grey
A combinação entre chá e bergamota cria um perfil imediatamente reconhecível: cítrico, aromático e elegante.

Chá branco
Geralmente interpretado de maneira leve, limpa e transparente, frequentemente associado a flores suaves e musk.

Oolong
Um território particularmente interessante entre o verde e o oxidado. Dependendo da inspiração, pode apresentar aspectos florais, minerais, tostados ou frutados.

Matcha
Uma das interpretações que mais crescem atualmente. Seu contraste entre verde, amargor, terra e cremosidade permite construções que vão do minimalista ao gourmand. 

E existe ainda outro ingrediente que nos interessa especialmente.

Rooibos: o chá que não é chá

Popularmente chamado de chá vermelho, o rooibos não pertence à Camellia sinensis, planta da qual se originam os tradicionais chás verde, branco, preto e oolong.

Ele vem da Aspalathus linearis, espécie originária da África do Sul.

E seu aroma abre um caminho completamente diferente.

Pesquisas de análise sensorial descrevem no rooibos características principalmente amadeiradas, florais e de mel, acompanhadas por nuances que podem lembrar caramelo, frutas doces, damasco e ervas secas. Estudos de seus compostos voláteis também encontraram relações com percepções amadeiradas, verdes, florais e frutadas. 

Na perfumaria, isso significa sair daquela ideia cristalina e refrescante que normalmente associamos ao chá verde.

O rooibos é mais quente.

Mais seco.

Mais envolvente.

Existe nele uma sensação quase de madeira infusionada, acompanhada por uma doçura natural que não precisa necessariamente se transformar em um gourmand.

E foi justamente esse perfil que chamou nossa atenção no Laboratório Clandestino.

O rooibos será uma das matérias exploradas em uma nova fórmula atualmente em desenvolvimento no laboratório.

Não queremos simplesmente reproduzir o cheiro de uma xícara de chá. O interesse está em investigar suas diferentes facetas e descobrir o que acontece quando esse universo amadeirado, melado, levemente frutado e herbal passa a fazer parte de uma composição.

É uma matéria que ainda estamos estudando.

Pesando_

Extraindo_

Cheirando_

Esperando_

Porque antes de uma matéria-prima se transformar em perfume, existe uma etapa que talvez seja a mais interessante de todas: descobrir o que ela tem para contar.

Tea time, versão LC. 

Tatiana Boschilia
Fundadora do Laboratório Clandestino